|
|
November 27
Foto Montagem: coisas de Alice
Três Alices moram em mim: Alice Maria, Alice “só” e Maria Alice. As três vivem numa fila eterna, mas nunca sabem quem será a primeira. Às vezes roubam uma o lugar da outra.
Alice Maria sou eu mesma: séria, compenetrada, ciente e consciente. Autoritária, um poço de manias: controversa, meticulosa, rígida, respira em compassos curtos. Alice Maria gosta de flores, de quintais arborizados, de mar rodeado de montanhas, de cheiro de chuva e terra molhada, aromas, casa limpa tudo em ordem, segundo a sua lógica do que seja ordem, é claro! Não admite a mentira. Faz favores e também grosserias. Tem mau humor matinal, sofre de insônia e do coração. Preocupa-se sempre com o dia de amanhã. Desconfia das pessoas que se apresentam super simpáticas logo de cara, mas quando ama é incondicional. Adora artes, mas não estuda sobre isso. Acha que diante da arte, basta a contemplação. Aficcionada por mudanças, já mudou de lugar - cidades, casas e objetivos - mais de trinta vezes. A cada mudança, um novo projeto, um novo sonho, um novo desafio. Parece que só sobrevive a toque de desafios. Quando não é possível mudar de lugar, mudam os planos, os móveis; muda de rumo. Apesar das constantes mudanças tem os pés fincados na terra da realidade. É observadora, cigana da alma humana. Parece que lê o que vai por dentro das pessoas. Extremista, vai da felicidade total à pior das depressões. É muito contraditória, mas isso também é transitório. Liberdade é o ar que ela respira, não admite controle do externo. Pode ser muito generosa, mas se desiludida com alguma deslealdade, risca o nome da agenda. Assim, Alice Maria vai e volta pra vida como um bumerangue.
Alice “Só”, criatura muito estranha! Exerce papéis que julga adequado a cada situação. Impenetrável como uma caixa de chumbo, pode desmoronar por dentro e sorrir pro’ mundo Ninguém sabe nada dela que ela não queira. Se qualquer coisa vai mal, se monta de uma personagem e encarna a normalidade. Totalmente sem paciência para o cotidiano, odeia conversas jogadas fora, tem sempre pressa. Perfeccionista e exigente não gosta de tapinha nas costas. Passa por cima de tudo que vai de encontro aos seus interesses, mas, uma verdade seja dita de Alice “Só”, é solidária com a dor alheia. Quando quer, quer pra’ ontem. Acha o mundo muito barulhento, sujo e entupido de coisas desnecessárias. Gostaria de viver em outro planeta. Difícil de conviver, é quase uma caricatura de Alice Maria.
Maria Alice. Esta acha que tem o melhor das duas. Sonhadora, criativa, positiva, fazedora de arte. Capaz de morrer de paixão e acabar com ela num estalar de dedos. Sonha acordada com viagens ao redor do mundo. Já morou em muitos lugares imaginários. Sua alma de descendência Lusitana nem parece.
Louca pela Itália e tudo que dessa terra emana, ainda planeja conhecer-lhe a palmos e beijar-lhe o chão. Vai saber por que! Maria Alice gosta de velas acessas, música lenta, romance, bons livros, cinema europeu e paixões rápidas. Sonha com uma casa com flores na janela, jasmim perfumando o quintal, balanço de madeira na árvore com vista para o pôr do sol a beira mar. Adora gente que conta histórias do passado das terras que habitam e gosta de sentir saudade com sabor, perfume e melodia. Oscila entre o mar e a montanha. Entre o pôr do sol de verão e o aconchego da lareira na serra encoberta pela neblina. Sonha com seu atelier de portas abertas aos andarilhos do mundo a contar-lhe histórias. É inovadora sem abandonar os traços de herança ética herdada da história familiar. Descobre o mundo pelos seus aromas e com olhares bem diferente das outras, pela paixão. Inventa histórias pra si mesma. Quando imersa em algum processo criativo se abstém do mundo.
Estas Alices estão permanentemente em mim. O difícil é saber qual delas está no comando, mas às vezes, tenho a impressão que todas me abandonaram e me sinto literalmente órfã. Saio buscando por mim.
Ainda não sei de qual delas gostaria de ser a preferida, mas de uma coisa tenho certeza: nunca gostaria de ser a única.
Incubadora: Lagoa da Conceição/Florianópolis/SC/Brasil 23/10/2007 November 21
Foto: alicepguimaraes
Lagoa da Conceição - Florianópolis/SC/2007
Espelho d’água, com suas garças mecânicas, postadas, rijas, pescoços eretos, postas uma após outra, em risca de partida. Aprumam seus mastros na espera da hora de entalhar teu aço. Horizonte norteado por montes, aqui, acolá. Recobertos do tão etéreo verde meio ao urbano. Não fossem os gigantes blocos acinzentados que mareiam a leste, serias tu, espelho d’água, a mais perfeita miragem meio a essa imensidão. Espelho d’água trincado pelo ronco que interrompe o silêncio, filetando tuas águas em busca do mar mais profundo, que se estende de ti mundo afora. Ao oeste invade-te o pequeno píer, encontro dos pássaros, onde solidário me curvo a tua grandeza. Deixo-me ouvir nos sons dessa manhã de sol morno, vento fraco.
Conversa da natureza que beija o chão, adorna o céu; multiplica a vida.
Aqui, quieto, me calo. Em ti me refaço. Como cá estou sentado à beira do meu Balneário.
Incubadora: Balneário do Estreito- Floripa/SC - 2007
November 15
Foto: Paula de Carvalho - "Olho" - Curitiba-PR/2007
Três espelhos existiam na casa vazia: um no hall, um no lavabo, outro no quarto abafado. Neles me refletia, me fazia companhia quando de solidão enlouquecia. Neles, se fazia presente meu corpo demente de alma vadia. Foram sempre companheiros, amigos verdadeiros, pois de mim não se esqueciam nem por um só dia. Quando a noite vagava do quarto pra sala, da sala pro nada, ali estavam, com olhar parado, o ar abandonado do reflexo apagado. Foram eles que testemunharam impassíveis, o passar dos meus dias, na casa vazia. De quando as lágrimas marcaram o meu rosto nem riram do meu desgosto, só eles sabiam que o reflexo que viam nada mais dizia que não fosse a minha agonia.
Incubadora: Icaraí - Niterói/RJ - 2001
Foto: Alicepguimarães
Aprendi na escola a regra da escrita. Aprendi na vida que o sentimento é exceção à regra dita. É dele que falo. Por ele não calo. Atropelo as letras, ponho os verbos na gaveta. Abandono os pontos pra falar como eu conto o amor pela vida. Não tem concordância que diga que o verbo é o amigo mais certo do meu substantivo. Sou sujeito da vida, predicado de mim mesmo. O objeto, que seja ele direto, pois é o meu sentimento que é tão intenso que não permite consenso com a regra da escrita.
Incubadora: Icaraí- Niterói/RJ - 2003
Foto: Alicepguimarães
Não sei se o que escrevo é verso ou se é conto. Não sei onde coloco o ponto e se rima com a vírgula. Só sei que escrevo aquilo que vem de dentro, de um mundo atento à contemplação da vida. Sinto em mim um movimento que impulsiona palavras, junta letras ao vento que no papel desabam. Pra falar do sentimento que vai aqui dentro não tenho regra. Não existe gramática e nem temática que impeça o papel de fazer esse acordo comigo pra dizer do que sinto.
Incubadora: Icaraí- Niterói - 2004
December 17
Foto: Guilherme Castoldi
Lagoa da Conceição - Floripa/SC – 2007
Pedi pra morar bem ali pertinho. Pedi para manter minhas raízes ao chão. Pedi para ter flores na Janela, ter cão latindo, cheirinho de café fresco. Pedi para ter bolo assando no domingo. Pedi para ter vizinhos, carteiro batendo à porta. Pedi para acordar na mesma cama, na mesma casa, na mesma rua, na mesma cidade. Mas como o vento, vendaval, ventania, meu espírito se nega à constância. Se entrega a passos largos. Se volta contra meus pedidos. Me atira na vida. Me liberta do tempo e do cotidiano. Me leva para outras ruas, outras casas, outras cidades. Me força a experimentar novos aromas, novos sabores. Espelha em meus olhos novos reflexos. Canta aos meus ouvidos que é hora de partir, de girar a roda da vida.
Incubadora: Av. Paulista- São Paulo - Dez/2005
August 20
Foto: Boneco de Pet - Técnica: Papietagem (Feito por mim)
A natureza grita. A natureza se desespera. E você urbano que não é humano, apenas espera. Espera pelo mar de detritos. Espera pelo ar poluído. Espera pela terra agredida. A natureza grita. A natureza se desespera. E você urbano que não é humano, apenas espera. Espera pela desintegração. Espera pela regeneração. Esparrama o seu vício de espalhar seu lixo. E eu, no vácuo desse ócio urbano, vou juntando seus detritos. Do seu lixo faço forma, gero a alma e não desisto.
Incubadora: Avenida Paulista - São Paulo/2005 Sem revisão
|
|
|
|